domingo, 4 de outubro de 2015

Cordel: A CHEGADA DE LAMPIÃO NO CÉU Autor: Guaipuan Vieira



Foi numa Semana Santa
Tava o céu em oração
São Pedro estava na porta
Refazendo anotação
Daqueles santos faltosos
Quando chegou Lampião.

Pedro pulou da cadeira
Do susto que recebeu
Puxou as cordas do sino
Bem forte nele bateu
Uma legião de santos
Ao seu lado apareceu.

São Jorge chegou na frente
Com sua lança afiada
Lampião baixou os óculos
Vendo aquilo deu risada
Pedro disse: Jorge expulse
Ele da santa morada..

E tocou Jorge a corneta
Chamando sua guarnição
Numa corrente de força
Cada santo em oração
Pra que o santo Pai Celeste
Não ouvisse a confusão.

O pilotão apressado
Ligeiro marcou presença
Pedro disse a Lampião:
Eu lhe peço com licença
Saia já da porta santa
Ou haverá desavença.

Lampião lhe respondeu:
Mas que santo é o senhor?
Não aprendeu com Jesus
Excluir ódio e rancor?...
Trago paz nesta missão
Não precisa ter temor.

 Disse Pedro isso é blasfêmia
É bastante astucioso
Pistoleiro e cangaceiro
Esse povo é impiedoso
Não ganharão o perdão
Do santo Pai Poderoso

Inda mais tem sua má fama
Vez por outra comentada
Quando há um julgamento
Duma alma tão penada
Porque fora violenta
Em sua vida é baseada.

- Sei que sou um pecador
O meu erro reconheço
Mas eu vivo injustiçado
Um julgamento eu mereço
Pra sanar as injustiças
Que só me causam tropeço.

Mas isso não faz sentido 
Falou São Pedro irritado 
Por uma tribuna livre 
Você aqui foi julgado 
E o nosso Onipotente 
Deu seu caso encerrado. 

- Como fazem julgamento 
Sem o réu estar presente? 
Sem ouvir sua defesa? 
Isso é muito deprimente 
Você Pedro está mentindo 
Disso nunca esteve ausente. 

Sobre o batente da porta 
Pedro bateu seu cajado 
De raiva deu um suspiro 
E falou muito exaltado: 
Te excomungo Virgulino 
Cangaceiro endiabrado. 

Houve um grande rebuliço 
Naquele exato momento 
São Jorge e seus guerreiros 
Cada qual mais violento 
Gritaram pega o jagunço 
Ele aqui não tem talento. 

Lampião vendo o afronto 
Naquela santa morada 
Disse: Deus não está sabendo 
Do que há na santarada 
Bateu mão no velho rifle 
Deu pra cima uma rajada. 

O pipocado de bala 
Vomitado pelo cano 
Clareou toda a fachada 
Do reino do Soberano 
A guarnição assombrada 
Fez Pedro mudar de plano. 

Em um quarto bem acústico 
Nosso Senhor repousava 
O silêncio era profundo 
Que nada estranho notava 
Sem dúvida o Pai Celeste 
Um cansaço demonstrava. 

Pedro já desesperado 
Ligeiro chamou São João 
Lhe disse sobressaltado: 
Vá chamar Cícero Romão 
Pra acalmar seu afilhado 
Que só causa confusão. 

Resmungando bem baixinho 
Pra raiva poder conter 
Falou para Santo Antônio: 
Não posso compreender 
Este padre não é santo 
O que aqui veio fazer?! 

Disse Antônio: fale baixo 
De José é convidado 
Ele aqui ganhou adeptos 
Por ser um padre adorado 
No Nordeste brasileiro 
Onde é “santificado”. 

Padre Cícero experiente 
Recolheu-se ao aposento 
Fingindo não saber nada 
Um plano traçava atento 
Pra salvar seu afilhado 
Daquele acontecimento. 

Logo João bateu na porta 
Lhe transmitindo o recado 
Cícero disse: vá na frente 
Fique despreocupado 
Diga a Pedro que se acalme 
Isso já será sanado. 

Alguns minutos o padre 
Com uma Bíblia na mão
Ao ver Pedro lhe indagou: 
O que há para aflição? 
Quem lá fora tenta entrar 
E também um ser cristão, 

São Pedro disse: absurdo 
Que terminou de falar 
Mas Cícero foi taxativo: 
Vim a confusão sanar 
Só escute o réu primeiro 
Antes de você julgar. 

Não precisa ele entrar 
Nesta sagrada mansão 
O receba na guarita 
Onde fica a guarnição 
Com certeza há muitos anos 
Nos busca aproximação. 

Vou abrir esta exceção 
Falou Pedro insatisfeito 
O nosso reino sagrado 
Merece muito respeito 
Virou-se para São Paulo: 
Vá buscar este sujeito. 

Lampião tirou o chapéu 
Descalço também ficou 
Avistando o seu padrinho 
Aos seus pés se ajoelhou 
O encontro foi marcante 
De emoção Pedro chorou 

Ao ver Pedro transformado 
Levantou-se e foi dizendo: 
Sou um homem injustiçado 
E por isso estou sofrendo 
Circula em torno de mim 
Só mesmo o lado ruim 
Como herói não estão me vendo. 

Sou o Capitão Virgulino 
Guerrilheiro do sertão 
Defendi o nordestino 
Da mais terrível aflição 
Por culpa duma polícia 
Que promovia malícia 
Extorquindo o cidadão. 
Por um cruel fazendeiro 
Foi meu pai assassinado 
Tomaram dele o dinheiro 
De duro serviço honrado 
Ao vingar a sua morte 
O destino em má sorte 
Da “lei” me fez um soldado. 

Mas o que devo a visita 
Pedro fez indagação 
Lampião sem bater vista: 
Vê padim Ciço Romão 
Pra antes do ano novo 
Mandar chuva pro meu povo 
Você só manda trovão 

Pedro disse: é malcriado 
Nem o diabo lhe aceitou 
Saia já seu excomungado 
Sua hora já esgotou 
Volte lá pro seu Nordeste 
Que só o cabra da peste 
Com você se acostumou. 

 FIM

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