domingo, 4 de outubro de 2015

Conto: Chico Neném, O Filho dos Lobisomens

Por Raimundo Bento Sotero - poeta e Escritor camocinense

O Chico Neném, que era filho do Zé Leitão e da Maria Viana, seria uma criança normal, como todas do seu tempo, não fosse o fato de ele ser filho de pais lobisomens, estes que, segundo se dizia, viravam bicho toda noite de quinta para sexta-feira, correndo do Tapuiú, tomando o rumo da Madeira-Cortada, passando pela Baixa-Grande, Lagoa-das-Pedras, Tremedal, Ziú, Praia-Formosa etc., comendo o que era de bacorinhos, filhotes de cachorros, frangos de primeira pena, monjolos, fulejos... o diabo a quatro! , causando desta forma grande prejuízo aos sitiantes, estes que viam seus bichos dizimados a cada semana, porque por onde os dois passavam iam deixando um rastro de sangue e destruição, o que dava pena de se ver, pois era um frango estraçalhado aqui, tendo de si, no mais das vezes, apenas as penas e nada mais; ali eram os restos de um bezerro; acolá uma carcaça de bode... enfim uma carnificina! 

Aquilo perdurou por muitos anos, até o dia em que os dois tiveram a infelicidade de comer o gato da Dona Maroca, esta que há muito tempo vivia a dizer que se eles se metessem a besta de fazer algum mal ao seu "filhinho", estariam em maus lençóis e foi exatamente isto que se deu, pois a velha, parece que de propósito, criava não sei quantos cachorros de raça, coisa bem diferente dos outros sitiantes, que tinham uns vira-latas magricelas, cheios de nós pelas costelas, possíveis sequelas das patadas dos lobisomens, pois estes, quando passavam e eram acuados pela cachorrada, de vez em quando, entre um latido e outro, se ouvia um grito de dor lancinante e aquele que recebia a pancada saía do bando, se torcendo, ganindo, inteiriçado de dor, tomando o rumo de casa, para que o dono fizesse uma compressa de mastruz; isto se não procedesse como o seu Severino, que quando seu cão chegou aos urros de dor, ele, despertando do sono, em vez de cuidar das pisaduras do bicho, deu-lhe foi uma tremenda pesada por cima do lombo, chega o pobre diabo desmaiou de dor, indo acordar no outro dia, o sol nas sumas alturas. Só não morreu, pois foi acudido pela dona Loló, mulher do desalmado, que lhe pensou as feridas, botando o pobre animal para dormir na alcova dela, deixando o marido apartado por não sei quantos dias, aguentando a cruviana nos couros até dizer chega, o tempo da convalescência do cachorro; isto sem contar dos resmungos contra o marido; mas baixinho, para que ele não a ouvisse, pois temia lá o que fosse: "Este corno parece que é doido. Por que não foi bater na vagabunda da mãe dele, aquela sem-vergonha!?", ao que o Espadarte, este era o nome do cão, não sei se de dor ou por dengo, soltava, lá na sua linguagem de bicho, uns guinchos, lembrando gemidos.

Pois bem, voltando ao fio da meada, quando a Dona Maroca acordou em certa sexta-feira, gato, o que era dele!? Chamou que chamou pelo bichano e nada. Cansada de tanto chamar, deu de ir ver pelo terreiro se havia algum vestígio dele e mal abriu a porta da rua, viu que a desgraça havia sido feita, pois do gato só restavam a ponta do rabo e uma maçaroca de pelos deste tantinho assim, esta que era tangida pelo vento. Ante a visão, a velha soltou um grito de dor e caiu pelo fofo da terra, fazendo bufo; mas quando despertou do passamento, jurou vingança, dizendo que iria matar os malditos lobisomens. 


Ora, na outra semana, quando deu quarta-feira, ela deixou de alimentar os seus cães de raça, estes que pelo tamanho mais pareciam uns novilhos, pesando o menor deles, que eram em número de seis, uns sessenta quilos. Quando enfim chegou a quinta-feira, os vizinhos já não suportavam o alarido dos bichos que, de fome, pareciam querer comer uns aos outros. De longe só se ouvia o tinir dos dentes entre si, o que dava arrepio, pela ferocidade. Quando a noite escancarou a boca, engolindo o mundo, a Dona Maroca deu de traçar seus planos de vingança, cuidando de cada detalhe da trama. Assim, mal apareceu a primeira estrela, foi buscar um burrego de carneiro que cuidadosamente encerrara no chiqueiro, amarrando-o pelo pátio da casa, a servir de isca aos lobisomens e ficou de vigia, apurando o ouvido ao possível tropel dos bichos, o que não demorou acontecer. Então ela, mais que depressa, foi ao canil soltar os bichos, estes que, já pressentindo a visagem, estavam inquietos. Ora, logo pela curva da estrada apareceram as marmotas, as quais vinham num tropel dos diabos, levantando tufos de poeira, esta que subia ao céu, embaçando as estrelas, como a lua, escurecendo a noite. Foi quando a Dona Maroca abriu a porta ao canil e a matilha saiu ao encontro do que fosse. Um instante depois, de longe, ouvia-se o estrondo da peleja, constando de ganidos de dor, de ossos sendo partidos, do trerreco-treco das dentuças se chocando umas com as outras, do rete de mantas de carne sendo arrancadas aos dentes, dos grunhidos de bichos desconhecidos, que não se sabia ao certo o que fossem... enfim aquela desordem da peleja. A luta era bruta e difícil saber quem estava ganhando, pois na barafunda da briga, muitas vezes um deles em vez de morder os bichos, davam preacadas terríveis nos semelhantes, o que sempre arrancava um grito de dor lá na linguagem deles; mas pouco a pouco a roda da fortuna pendeu para o lado dos cães, mesmo por que a qualquer sinal de esmorecimento deles, a Dona Maroca açulava-os para que não desistissem da empreitada, chegando mesmo a dar um chute no Rompe-Ferro, quando este por um instante, esmorecido, se afastou do campo de batalha, ao que o pobre cão soltou um ai de cortar coração; mas voltou para a luta, mesmo todo torto de dor, por medo de outro chute da velha. Melhor seria enfrentar os bichos que ela. Daí a nada, os lobisomens, pressentido que não conseguiriam tirar a volta, como dizem os pescadores, abriram o peito no mundo a se safarem das mordidas; mas, para espanto da Dona Maroca, havia um terceiro lobisomem, este que, era um como filhote e, por isso mesmo, deu de ficar para trás, servindo de almoço para os cães, estes que a semelhantes dentadas arrancavam febras assim da carne daquilo que não se sabia o que fosse. Em pouco tempo, os bichos estraçalhavam o que quer que fosse; mas para espanto da Dona Maroca aquilo, de repente, se transformou num menino, que outro não era senão o Chico Neném, que berrava de dor às mordidas dos cães. A grande custo, Dona Maroca conseguiu conter seus bichos, ficando o diabo do filho de lobisomem entre a vida e a morte, salvando-se nas "colher de rapaz maxixe" como se diz aqui na roça.

Só não morreu de fato, porque quando foi mordido pelos cães, foi mordido na qualidade de bicho e assim tais mordidas, como que por milagre, em poucos instantes, sararam, bastando abrigar-se da luz da lua; já os outros ferimentos, os recebidos como gente, ah, estes arruinaram-se transformando-se em pustemas, que os letrados chamam pústulas, sarando a custa de muita casca de aroeira e ameixa, caindo as escaras depois de bons três meses de tratamento.

Cordel: A CHEGADA DE LAMPIÃO NO CÉU Autor: Guaipuan Vieira



Foi numa Semana Santa
Tava o céu em oração
São Pedro estava na porta
Refazendo anotação
Daqueles santos faltosos
Quando chegou Lampião.

Pedro pulou da cadeira
Do susto que recebeu
Puxou as cordas do sino
Bem forte nele bateu
Uma legião de santos
Ao seu lado apareceu.

São Jorge chegou na frente
Com sua lança afiada
Lampião baixou os óculos
Vendo aquilo deu risada
Pedro disse: Jorge expulse
Ele da santa morada..

E tocou Jorge a corneta
Chamando sua guarnição
Numa corrente de força
Cada santo em oração
Pra que o santo Pai Celeste
Não ouvisse a confusão.

O pilotão apressado
Ligeiro marcou presença
Pedro disse a Lampião:
Eu lhe peço com licença
Saia já da porta santa
Ou haverá desavença.

Lampião lhe respondeu:
Mas que santo é o senhor?
Não aprendeu com Jesus
Excluir ódio e rancor?...
Trago paz nesta missão
Não precisa ter temor.

 Disse Pedro isso é blasfêmia
É bastante astucioso
Pistoleiro e cangaceiro
Esse povo é impiedoso
Não ganharão o perdão
Do santo Pai Poderoso

Inda mais tem sua má fama
Vez por outra comentada
Quando há um julgamento
Duma alma tão penada
Porque fora violenta
Em sua vida é baseada.

- Sei que sou um pecador
O meu erro reconheço
Mas eu vivo injustiçado
Um julgamento eu mereço
Pra sanar as injustiças
Que só me causam tropeço.

Mas isso não faz sentido 
Falou São Pedro irritado 
Por uma tribuna livre 
Você aqui foi julgado 
E o nosso Onipotente 
Deu seu caso encerrado. 

- Como fazem julgamento 
Sem o réu estar presente? 
Sem ouvir sua defesa? 
Isso é muito deprimente 
Você Pedro está mentindo 
Disso nunca esteve ausente. 

Sobre o batente da porta 
Pedro bateu seu cajado 
De raiva deu um suspiro 
E falou muito exaltado: 
Te excomungo Virgulino 
Cangaceiro endiabrado. 

Houve um grande rebuliço 
Naquele exato momento 
São Jorge e seus guerreiros 
Cada qual mais violento 
Gritaram pega o jagunço 
Ele aqui não tem talento. 

Lampião vendo o afronto 
Naquela santa morada 
Disse: Deus não está sabendo 
Do que há na santarada 
Bateu mão no velho rifle 
Deu pra cima uma rajada. 

O pipocado de bala 
Vomitado pelo cano 
Clareou toda a fachada 
Do reino do Soberano 
A guarnição assombrada 
Fez Pedro mudar de plano. 

Em um quarto bem acústico 
Nosso Senhor repousava 
O silêncio era profundo 
Que nada estranho notava 
Sem dúvida o Pai Celeste 
Um cansaço demonstrava. 

Pedro já desesperado 
Ligeiro chamou São João 
Lhe disse sobressaltado: 
Vá chamar Cícero Romão 
Pra acalmar seu afilhado 
Que só causa confusão. 

Resmungando bem baixinho 
Pra raiva poder conter 
Falou para Santo Antônio: 
Não posso compreender 
Este padre não é santo 
O que aqui veio fazer?! 

Disse Antônio: fale baixo 
De José é convidado 
Ele aqui ganhou adeptos 
Por ser um padre adorado 
No Nordeste brasileiro 
Onde é “santificado”. 

Padre Cícero experiente 
Recolheu-se ao aposento 
Fingindo não saber nada 
Um plano traçava atento 
Pra salvar seu afilhado 
Daquele acontecimento. 

Logo João bateu na porta 
Lhe transmitindo o recado 
Cícero disse: vá na frente 
Fique despreocupado 
Diga a Pedro que se acalme 
Isso já será sanado. 

Alguns minutos o padre 
Com uma Bíblia na mão
Ao ver Pedro lhe indagou: 
O que há para aflição? 
Quem lá fora tenta entrar 
E também um ser cristão, 

São Pedro disse: absurdo 
Que terminou de falar 
Mas Cícero foi taxativo: 
Vim a confusão sanar 
Só escute o réu primeiro 
Antes de você julgar. 

Não precisa ele entrar 
Nesta sagrada mansão 
O receba na guarita 
Onde fica a guarnição 
Com certeza há muitos anos 
Nos busca aproximação. 

Vou abrir esta exceção 
Falou Pedro insatisfeito 
O nosso reino sagrado 
Merece muito respeito 
Virou-se para São Paulo: 
Vá buscar este sujeito. 

Lampião tirou o chapéu 
Descalço também ficou 
Avistando o seu padrinho 
Aos seus pés se ajoelhou 
O encontro foi marcante 
De emoção Pedro chorou 

Ao ver Pedro transformado 
Levantou-se e foi dizendo: 
Sou um homem injustiçado 
E por isso estou sofrendo 
Circula em torno de mim 
Só mesmo o lado ruim 
Como herói não estão me vendo. 

Sou o Capitão Virgulino 
Guerrilheiro do sertão 
Defendi o nordestino 
Da mais terrível aflição 
Por culpa duma polícia 
Que promovia malícia 
Extorquindo o cidadão. 
Por um cruel fazendeiro 
Foi meu pai assassinado 
Tomaram dele o dinheiro 
De duro serviço honrado 
Ao vingar a sua morte 
O destino em má sorte 
Da “lei” me fez um soldado. 

Mas o que devo a visita 
Pedro fez indagação 
Lampião sem bater vista: 
Vê padim Ciço Romão 
Pra antes do ano novo 
Mandar chuva pro meu povo 
Você só manda trovão 

Pedro disse: é malcriado 
Nem o diabo lhe aceitou 
Saia já seu excomungado 
Sua hora já esgotou 
Volte lá pro seu Nordeste 
Que só o cabra da peste 
Com você se acostumou. 

 FIM